O meu padrinho sportinguista!
Vou ser sincero convosco. Não costumo partilhar da antipatia histórica e figadal dos benfiquistas pelo Sporting. É um clube que tolero bem, o meu falecido padrinho era um grande sportinguista e ainda hoje lhe reconheço o estoicismo com que sempre tentou influenciar-me, na minha infância, a mudar de camisola. Para sua infelicidade a sua tentativa de me lavar o cérebro com constantes aliciamentos – com chocolates, devo confessar – à sua fé clubística não teve o desfecho que ele pretendia, mas por empatia pessoal ou reflexo condicionado, fui desenvolvendo uma tolerância que me acompanhou até à minha mudança definitiva para Santarém, há pouco mais de dez anos.
Nessa altura, comecei a libertar-me, lentamente, desse estigma pessoal, como se carregasse comigo uma dívida impagável pelos constantes favores do meu padrinho – apesar de reconhecer esse pagamento em chocolate, juro que ainda não estava em idade de pensar sexualmente nas coisas e que não há memória de uma escuta minha e do meu padrinho constar do extenso e esclarecedor dossier que a PJ detém de conversas telefónicas, fruta e derivados do cacau.
É curiosa esta minha desprendida ligação ao Sporting, porque nos últimos anos, durante o exercício da minha função jornalística na Sporttv, um treinador muito conhecido do nosso campeonato, cuja simpatia pelo Benfica deixaria muitos dos leitores deste texto completamente surpreendidos, um dia disse textualmente a um colega meu: «Gosto muito de ouvir o José Marinho a fazer comentários, só tenho pena que seja tão sportinguista». Depois de ter sido elucidado pelo meu colega sobre a tinta vermelha que pintava a minha manta clubística, sentiu o impulso de me ligar nesse mesmo dia em que lhe foi feita a revelação do meu benfiquismo. É curioso, porque desde essa altura tornámo-nos amigos e quase sempre os nossos debates são sobre o Benfica e sobre o seu sonho de treinar o nosso clube e do meu desejo em vê-lo treinar a nossa equipa. Posso dizer-vos que se trata de um ex-jogador importante do FC Porto, com a imagem muito conotada com esse clube, mas que sente a sua carreira e benfiquismo incompletos, porque nunca lhe foi permitido jogar no Benfica e agora promete não desistir de um dia servir o nosso clube, apesar de dois ou três ensaios já testados por ambas as partes.
Vem isto a propósito da consideração geral, de muitos adeptos e até de jogadores e treinadores da nossa liga, de que eu seria adepto do Sporting. Pois bem, como sabem, não sou, nunca fui e nunca serei. Apesar de tudo, admito a minha tolerância pelo clube, pelas razões que já expus e que peço que compreendam. Porém, essa tolerância começa a parecer-me completamente fora do sítio, porque nos anos mais recentes sinto que o Sporting se tem descaracterizado como clube e com essa descaracterização perde o respeito dos seus apoiantes e até daqueles, como eu, que não sendo adeptos do clube, pelo menos respeitam a sua história e tradição.
A algazarra que os dirigentes, treinador e jogadores do Sporting fizeram, logo após a final da Taça da Liga - embora perceba a sua momentânea quebra de ânimo – fizeram-me concluir que vezes demais o clube deixou de falar por si próprio. Existe ali uma voz interior, proveniente de outro hemisfério desportivo, que parece exercer um fascínio mal explicado sobre os actuais dirigentes do Sporting e que os impele a alguns discursos mal colocados e completamente forjados a uma ridícula mania da perseguição.
Mas que essa mania se desenvolvesse contra um clube que em Portugal tem o total domínio das instituições e do futebol, eu aceitava, como reflexo de luta e de resistência a essa hegemonia. Mas o espantoso de tudo isto é que a mania de perseguição do Sporting vira-se constantemente contra o Benfica, clube que nos últimos anos se classifica frequentemente atrás do clube de Alvalade. Como se compreende isto? Eu, pelo menos, não compreendo, que o Sporting esteja mais preocupado com o Benfica do que em recuperar todo o terreno que, nos últimos vinte e cinco anos, perdeu para o FC Porto.
Sabem o que isto parece? Todos os anos, no campeonato português, com o primeiro e o segundo lugares a darem acesso à Liga dos Campeões, existe a sorte a grande e a terminação para distribuir. E que o Sporting já se contenta com a terminação. E por isso ataca o Benfica e deixa o FC Porto com a sorte grande de ver os clubes de Lisboa sistematicamente de costas voltadas. Eu lamento imenso pelo meu padrinho e por outros grandes sportinguistas que conheço, mas eu nunca podia ser adepto de um clube destes. Eu não quero a terminação para o Benfica.
Um exemplo que não podia ser mais esclarecedor do que escrevo. Último fim de semana, após o jogo de Guimarães, um dirigente do Sporting exclama toda a sua desconfiança pela arbitragem de Bruno Paixão. Tudo certo, porque o Sporting foi prejudicado por algumas decisões inexplicáveis do árbitro. Mas quando pensei que a preocupação do dirigente do Sporting fosse que o clube pudesse ser lesado na corrida pelo título, que mantém com o FC Porto, a sua incompreensível preocupação era afinal o Benfica. Claro que fiz contas, depois destas declarações. Não é verdade que o Benfica está à mesma distância do Sporting, na luta pelo segundo lugar, que o Sporting está do FC Porto, na luta pelo primeiro? Então, porquê esta fixação pelo Benfica? E no dia a seguir, em Coimbra, todos vimos que Olegário mais uma vez teve o incrível azar de não assinalar uma evidentíssima grande-penalidade contra o FC Porto e fiquei à espera de ver, no dia seguinte, sei lá, um dirigente do Sporting, tipo Paulo Abreu, a declarar a sua incontida fúria, à semelhança do que tinha feito após o Benfica-Sp.Braga deste campeonato. Porém, nada disso. E mais convencido fiquei de que passa-se qualquer coisa com os dirigentes e alguns apoiantes do Sporting, quando ouvi na tarde de segunda-feira, num programa da Antena 1, que reúne adeptos dos três grandes do futebol português, o adepto do Sporting, Eduardo Barroso, mais interessado em desenvolver essa teoria de que o Benfica conspira na Liga contra o Sporting, do que em imaginar o que podia ter acontecido de diferente em Coimbra, se Olegário tivesse assinalado uma das mais escandalosas grandes-penalidades deste campeonato.
Por isso, permitam-me terminar esta crónica, dirigindo-me ao meu padrinho: «Sempre quiseste que eu fosse sportinguista, mas espero que aceites o que te vou dizer. Se precisasse de uma boa razão para continuar a ser do Benfica, padrinho, ela aqui está. Eu até posso perder, mas sou de um clube que fará tudo para voltar a ganhar. Eu até posso cair, mas sou de um clube que fará tudo para se levantar. Eu até posso estar mal, mas sou de um clube que fará tudo para estar bem. Eu até podia ser do Sporting, mas escolhi ser do Benfica. E não escolhi mal. Desculpa padrinho e obrigado pelos chocolates».
PS: Claro que o discurso do Sporting entende-se como forma de pressão sobre a Liga – por isso saiu da direcção e prepara com o FC Porto o regresso de Guilherme Aguiar – e sobre os árbitros. Mas também acontece porque o presidente e a direcção do Benfica não sabem colocar institucionalmente as coisas na perspectiva mais correcta. Aliás, impressiona-me que o actual presidente do Benfica esteja, como sempre, mais preocupado em atacar outros benfiquistas do que em eliminar os efeitos desta estratégia do Sporting e do FC Porto para escorraçar Hermínio Loureiro. Até porque Vieira sabe que o actual presidente da Liga é apenas um efeito colateral na guerra que está a ser movida a Ricardo Costa. E isso para um benfiquista como eu incomoda-me. Por muita diferença de opinião que possa existir, nas instituições desportivas, o adversário nunca está dentro, está sempre fora. Tenho pena que Luis Filipe Vieira ainda não tenha percebido isso, ao fim de oito anos.
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